
Tem uma coisa que a pandemia deixou muito clara pra mim: quando o palco some, a história do músico fica por um fio. Porque o palco não é só show — é encontro, circulação, conversa de bastidor, o “tamo junto” depois da música, aquela faísca que liga uma pessoa na outra. E quando esse circuito desligou, ficou uma pergunta no ar: o que sobra quando a gente não consegue se ver?
O Musicando Trajetórias nasceu como uma resposta bem concreta a essa pergunta. Dentro do Cultura Online!, ele virou mais do que um “conteúdo extra”: virou o braço de fruição e memória do projeto, ao lado das oficinas e do blog. A própria proposta do Cultura Online! já apontava esse caminho: criar um espaço virtual de instrução e liberdade criativa, mas também de fruição, fomento e distribuição de produções artísticas textuais e audiovisuais, incluindo entrevistas.
Só que aqui entra o pulo do gato: entrevista, do jeito que a gente fez, não era “pergunta e resposta”. Era um tipo de escuta. Um jeito de transformar trajetória em repertório. E repertório em presença.
O Musicando Trajetórias é descrito como um desdobramento da pesquisa “Por Entre os Sons” — uma etnografia sobre a cena de Música Popular Instrumental Brasileira e do Jazz em Porto Alegre — usando ferramentas virtuais pra expandir essas reflexões pra múltiplos contextos.
E isso aparece também no meu próprio texto de pesquisa de um jeito bem honesto: no meio de produzir o programa, transcrever conversas e refletir sobre a cena, esse gesto vira construção de conhecimento compartilhado entre entrevistador e entrevistados.
Ou seja: não era “conteúdo pra preencher calendário”. Era uma prática de campo que continuava viva — só que adaptada ao mundo que tinha virado tela.
Eu gosto de pensar que o Musicando Trajetórias faz três coisas ao mesmo tempo:
Registra trajetórias (como memória viva, não como currículo).
Mostra a música em movimento (com audições, referências, parcerias, contexto).
Cria fruição (porque dá pra assistir como quem assiste um show/um documentário, não só “um papo”).
No fim, ele vira um tipo de “documentário em capítulos”: cada episódio puxa uma linha, abre um mapa, e deixa a gente enxergar a cena musical como algo vivo — com histórias, redes, deslocamentos, desafios e afetos.
No Cultura Online!, a temporada foi organizada como uma sequência de seis programas. Cada um tem um título-tema, e cada convidado vira um “capítulo” diferente da música gaúcha contemporânea — não só pelo currículo, mas pelo jeito de viver e construir música.
1) “Da Banda ao Ritual dos Palcos” — Dejeane Arruee
A conversa parte do contexto de bandas escolares e chega à presença forte nos palcos da música popular, com parcerias e atuação como performer, arranjadora e produtora.
2) “Pontos de Navegações Sonoras” — Marcelo Vaz
Um episódio feito de atravessamentos: práticas musicais distintas, fascínio pelo estudo em múltiplos fazeres e um percurso que liga passado, território e parcerias.
3) “Um encontro entre a Cidade e a Música” — Júlia Pezzi
A cidade como ambiente de encontros: trânsitos por espaços e contextos, e uma reflexão provocadora sobre o papel do encontro em nossas vidas.
4) “Pessoas de uma Música Instrumental” — Marcelo Corsetti
Um mergulho na memória da música instrumental em Porto Alegre (finais dos 80 e início dos 90), ressaltando festivais, pessoas e contatos como força de cena.
5) “Significado e Acolhimento em Música” — Camila Orsatto
Um episódio que atravessa acolhimento, apoio familiar, criatividade e também questões como empoderamento feminino, condições de trabalho na pandemia e o papel do professor como motivador.
6) “Música e Campo de Possibilidades” — Térence Veras
Influências familiares, referências gaúchas e brasileiras, reflexões sobre pandemia e um encerramento que amarra a temporada ao próprio projeto.
E só essa lista já mostra o coração do formato: cada episódio vira um mapa afetivo da cena. Não é só “quem é você?”. É “como a tua música se construiu no mundo?”.
Tem uma parte que eu faço questão de não romantizar: entrevista dá trabalho. E no começo, isso me trouxe três obstáculos bem concretos:
técnico (qualidade de áudio diferente, internet instável, limitações de gravação);
reflexivo (o que pode e o que não pode ir ao público sem expor intimidades);
econômico (o peso financeiro daquele momento, que atravessava tudo).
Isso explica por que o Musicando Trajetórias não é só “sentar e conversar”: ele envolve edição, recorte e uma ética de cuidado com a fala do outro. É uma obra de escuta.
O Musicando Trajetórias foi o lugar em que a gente pôde assistir a música pensando.
As entrevistas abrem espaço pra ouvir trabalhos, entender contextos, enxergar redes, e perceber que uma cena musical é feita de pessoas — e de relações. No fundo, isso faz uma coisa essencial em projeto cultural: forma público por vínculo, não por propaganda.
Tu não assiste só pra “aprender”. Tu assiste porque dá vontade de acompanhar aquela pessoa, ouvir de novo, procurar mais, reconhecer o valor.
No Cultura Online!, as oficinas seguraram o lado “escola”.
O laboratório coletivo segurou o lado “presença”.
E o Musicando Trajetórias segurou uma coisa que parece pequena, mas é gigantesca: memória.
Memória de cena. Memória de trajetória. Memória de um tempo em que a música precisou continuar existindo sem palco.
Me chamo Bruno, idealizador desse espaço, músico ativista da arte e da cultura, pesquisador e respansável por este espaço!







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